Um sentimento curto, rapidamente vivido, mas intenso… Os dias desfilam rápidos e sem me dar por eles, de repente, estou no acordar e acordo e acordo e acordo outra vez…. QUASE 15 dias passados e em mim a sensação de um ontem e um hoje somente.

Tentando deixar-me de Bla bla Bla blasssss…. Vou descrever este mundo indescritível e que, na verdade, não cabe em palavras. Queria que os meus olhos fossem não um vídeo mas uma máquina fotográfica para fazer de cada momento, individualmente, algo eterno. Queria fazer do coração ou da mente um livro que eu pudesse ler e reler tudo e todos os que levam algo de mim, mas principalmente, dos que deixam algo em mim, uma riqueza que “a coisa” ou “a pessoa”, um algo, o desconhecido desconhecendo-me não sabe do pedacinho que amo lembrar, ao acaso, e me enriquece por sentimentos e imagens mas que, por ser desconhecido, não sei definir… Julgo que o mais próximo será chamar-lhe vida. Lá vou eu em Blabla blassss outra vez, desculpem!

 

 Após esta introdução gordinha, tal como eu, que ganhei uns bons quilinhos a custa de pão e papaia (São divinos… Imaginem a sensação de serem uma criança insaciável que não sabe conter a sua gula perante novos sabores.. sou eu!!). Recomeçando, e semi apresentando a minha situação: estive perto de um mesinho em Milange com 47 meninos (Meninões) do lar dos capuchinhos e, como não poderia deixar de indicar, com o privilégio da companhia do Pedro, caro colega de trabalho, que após o nosso regresso a Quelimane (viagem de chapa, novamente) já regressou a Portugal. Por não estarmos na presença um do outro, esta em falta no blog até meu regresso ao Porto: os dias por Milange.

No entanto, e numa versão em solo, aproveito para gabar a excelente pessoa e voluntário que moram em ti Pedro… Foi excelente ter-te como colega de trabalho!

 

Então, cá estou, conjugação presente ou quase. Encontro-me em Quelimane, na famosa Casa esperança, com reencontro e nova colega de trabalho: Paula, com meninos maravilhosos, tudo muito diferente da etapa que vivi anteriormente, mas igualmente fascinante. Aqui, os meninos são mais novinhos, dos 5 aos 18 anos.

Finalmente, conheci o acordar ao som das músicas, choros, conversas madrugueiras dos meninos desta casa. Por vezes, encantador, por outras (consoante o cansaço) irritavelmente despertante! E também finalmente, tenho oportunidade de ver ao vivo o acontecer do nosso projecto do Ptad.

 

O meu dia a dia, durante a primeira semana, não tem sido vincado por rotinas. Após o pequeno-almoço: eu diria de manteiga com pão (pão com manteiga, já não satisfaz) e o caro Ricofi, os dias moldam-se as necessidades do trabalhos em falta para completar os ficheiros, idas aos bairros que fascinam tanto pela boa atenção das pessoas para connosco (história de que há sempre uma cadeirinha para nos sentarmos em detrimento dos que ficam em pé, no entanto, cortesia será aceitar e sentar, mesmo que, pelos breves minutos de uma informação ou foto das crianças do projecto) ou pelo olhar desconfiado daqueles que não nos gostam por não pertencermos aqueles arredores. Os dias moldam-se, também, ao vai e vem diário da Paula a acção social (burocracias moçambicanas que gentilmente eu caracterizaria com uma música brasileira, para quem conhecer: “…é devagar, é devagar, é devagar, devagar, devagarinho…”). Assim, também atendo as mamãs que vêm ao nosso encontro para entrar no projecto. Dentro dos muros da Casa Esperança ou simplesmente em “casa” os meninos são uma lição de vida, quer pela atenção que nos manifestam, carinho, brincadeira, curiosidade, tanto e tanto. As explicações são horas que desfilam sem se dar noção do tempo. O mais agradável é ver uns olhinhos pretos dirigir-se a nós com um leve sorriso e contar-nos: «Tia, consigui, tenho boa nota».

 

 Outro momento, que não vou querer esquecer, é meu dia de anos passado, nesse bocadinho de mundo, que já sinto meu. Tive o privilégio, apesar de já estar em pé, ter para todos os efeitos acordado com o cantar destes meninos e votos de parabéns junto da janela do meu quarto. Mais tarde, a doce intenção destes, tornou-se molhadinha, tendo eles preparado baldes e baldes de água para uma espécie de “banho ao aniversariante”, como tardei largas horas a sair de casa e apesar de muitos teimosos junto da porta, a fome dispersou-os e adiou o meu banho improvisado. Já durante a tarde, festejaram meus aninhos e também a chegada das nossas mais recentes voluntárias: Janine, Sara, Helga e Dina com canções ensaiadas. Após o “Frete” (… para eles) de canções largadas ao vento por meninos que transbordam de uma energia além da de um coro… IT WAS TIME TO TAKE A SHOWER!!!! Resumindo muito, não sobrou nem um pêlo seco entre aniversariante, tias, voluntários, meninos, vizinhos… Tudo quanto se mexe conheceu a temperatura da água do poço! A noite, o nosso já amigo e companheiro Gani, não dispensou a data e partilhamos todos mais bons momentos de convívio, pezinho de dança… Um dia de boas vindas e aniversário memorável (ainda bem que coincidiu com o fim de semana!).

 

Quem me ler, achará que haverá mais de diversão do que de trabalho. Na verdade, eu diria sem sombra de dúvida que o trabalho impõe-se largamente no nosso timing diário, afinal é a prioridade que nos trás por cá. Mas as tarefas tornam-se saciantes, aliciantes, cada desafio revela-nos e confirma a motivação que é estar presente, realizar e existir no seu melhor, ser feliz no que se faz, alimentar, sem querer, a vontade de voltar. 

Estou no momento em que tenho de adiar assuntos para uma próxima, apesar da vontade de exprimir o tanto e tanto de todo o cenário que decorre e foge. Em mim, neste preciso momento, com o correr destes meninos lá fora, vibra a vontade de não ter de voltar ao Porto para já (… já estou na contagem decrescente… D5, D4, D3…). Dou por mim apaixonada e mesmo na ausência destes ouço-os comigo, quanto mais não seja por frases que nos moram na mente, carinhosamente estridente: «Tia, to a pidir, to a pidir!!» «Tia, ta Chique de doer!» (a Paulinha não admite comparação e insiste que para ela terá de ser: «Chique de matar!»); ou os berros estridentes do amoroso e também ranhoso Chico (refiro-me ranhoso do nariz.. não da pessoa).

Ainda há as conversas mais sábias de quem já soma mais uns aninhos de vida: «Tia, tem namorado?», «Tia, as Damas não gostam de mim», «Tia, hei de fazer» … Com estas deixas, alimentem a imaginação das longas conversas que decorrem por estas tardes ensolaradas ou noites estreladas neste cantinho do mundo.

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