Segunda a Organização Mundial de Saúde, em 2007, havia em todo o mundo 33,2 milhões de pessoas infectadas pelo HIV, das quais 30,8 eram adultos; 15,4 eram mulheres e 2,5 crianças menores de 15 anos.
No mesmo ano, em Moçambique, mais de 3,3 milhões de pessoas, de 15 a 49 anos de idade, adoeceram com SIDA – ou seja, mais de 16% da população total do país. As Taxas Ponderadas de Prevalência do HIV em Adultos (15-49 anos) por província (2007) são:
§ Gaza – 27%;
§ Maputo – 26%;
§ Sofala – 23%;
§ Zambézia – 19% – onde fica situada a cidade de Quelimane;
§ Manica – 16%;
§ Tete – 13%;
§ Inhambane – 12%;
§ Cabo Delgado – 10%;
§ Niassa – 8%;
§ Nampula – 8%.
Estes números “assustadores” fazem reforçar a emergência de uma actuação eficiente e eficaz nesta área. Afinal, a saúde da nação é deveras importante para o desenvolvimento e sucesso de um país. Mas, esta é uma realidade que Moçambique enfrenta actualmente no sector da saúde.

Por isso, e de forma a sensibilizar para a epidemia do HIV/SIDA, desenvolvemos uma acção de formação com todos/as os/as responsáveis das crianças apoiadas pela ataca em Quelimane. Esta actividade de sensibilização pretendeu abordar os constructos relacionados com HIV/SIDA e formas de transmissão/prevenção assim como promover um maior esclarecimento e consciencialização para a adopção de comportamentos seguros e preventivos.


A total adesão dos/as 88 responsáveis pelas crianças apoiadas pela ataca permitiu que formássemos quatro grupos para que a sessão fosse o mais produtiva possível. Este momento, revelou-se não só para os/as responsáveis pelas crianças mas também para os/as colaboradores/as da ataca, como extremamente positivo devido à abertura e sinceridade no diálogo entre todos/as os/as intervenientes.

– “O preservativo contêm uns bichinhos que transmitem a SIDA”
– “Pode-se utilizar duas vezes o mesmo preservativo?”
– “Eu sei que tenho SIDA mas quero espalhar para outras pessoas. Porque se eu tenho os outros também têm de ter”
– “Não quero que os meus vizinhos saibam que tenho SIDA”
– “Pode-se transmitir SIDA através de uma picada de um mosquito?”

Estas foram algumas das inúmeras dúvidas e preconceitos que tivemos a oportunidade de discutir e esclarecer em conjunto. Deste modo, as duas horas de duração de cada grupo permitiram que os objectivos delineados para esta formação fossem cumpridos em toda a sua plenitude, tendo verificado que houve uma maior aquisição de conhecimentos sobre a problemática do HIV/SIDA.


Durante a sessão foi também discutida a vital pertinência da realização do teste HIV/SIDA, principalmente pelas crianças apoiadas pela ataca. Assim, ao ser minuciosamente discutida esta vital actividade, os/as responsáveis pelas crianças perceberam que apesar dos “medos”, “fantasmas” e “receios”, o conhecimento da situação de saúde será fulcral para um melhor acompanhamento da criança. Neste sentido, posteriormente à formação acompanhamos as crianças e seus/suas responsáveis a um Estabelecimento de Saúde de forma a realizar o teste HIV/SIDA. Estes testes são gratuitos e extremamente rápidos. No entanto, estes estabelecimentos deparam-se todos os dias com uma conta difícil de combater – muitas pessoas e pouco stock.


Assim, chegado ao fim desta actividade é com entusiasmo que verificamos que apesar de tudo, tivemos uma óptima adesão à iniciativa. Para além dos testes realizados às crianças apoiadas pela ataca, a realização do mesmo foi alargada a outros elementos do agregado familiar de forma voluntária (e.g., mamãs e irmãos/ãs).
O momento em que a mamã ou o papá entra no local da realização do teste com a criança, é em quase todos os casos, um momento de angústia e de incertezas. Os cinco minutos de silêncio enquanto se aguarda pelo resultado são bastante ruidosos. A explicação do/a técnico/a de saúde sobre como sabemos se o teste dá positivo ou negativo é ouvida por todos/as com grande atenção e nervosismo. Quando o silêncio ruidoso dava lugar a um teste positivo, era momento de para além de explicar os próximos procedimentos e cuidados a ter, de apoiar e reconfortar a pessoa fragilizada com a notícia. Por sua vez, quando o teste dava negativo, era motivo de alegria, sorrisos, suspiros, abraços e palavras de contentamento. No entanto, apesar do resultado negativo, sabendo que (infelizmente) um dia esse resultado pode modificar, os/as técnicos/as de saúde, de forma a alertar, controlar e prevenir esta problemática, aconselham que estas crianças deverão realizar o teste de 3 em 3 meses.


Em suma, esta iniciativa foi apenas uma primeira pedra de forma a combater a propagação desta problemática tão patente no continente Africano, nas crianças apoiadas pela ataca. Deste modo, conseguimos obter um melhor espelho da realidade que a ataca apoia e procuramos, incansavelmente, todos os dias, dar respostas eficazes e eficientes para a melhoria da qualidade de vida das famílias. Afinal, o mais importante é o trajecto que percorremos e não o destino…

Isabel Fernandes

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