Por aqui na Zambézia  há palavras que têm outra cor, outro cheiro, outro sabor. Há aquelas que nascem na luz do parto e aquelas que abafam o crescimento. Há também as palavras ditas caras que afinal são pobres e enfartam os estômagos ricos.
Os sonhos têm medo, o tempo é húmido. O tempo é hoje e aqui ao lado, a vida é uma sobrevivente e a morte é a família mais próxima que nunca falha.
As crianças são ouro que se esvazia dos ventres das mamãs. São elas quem cuidam das futuras gerações,varrem dentro e fora, se  apressam a crescer. São cada vez mais aquelas que vão à escola da repetição. Das turmas de 60, 70 e 80 meninos tropeçam-se vozes brilhantes  mas os saberes ficam só para aqueles que fintam o sol até mais tarde.

O caminho até à décima segunda está gasto, cravado de buracos, poluído de poeira visceral.  Os rapazes são atropelados entre a décima e décima primeira, são poucos aqueles que encontram soluções, que têm bolsos a que se socorrer. Escassos os nomes não magoados que se orientam na estrada até ao fim.

 As raparigas de pele dura,cabelos em cacho e olhos amendoados, sofrem com a beleza que acorda as bestas adormecidas. Improváveis as que escapam ao côco envenenado, menos as que são resgatadas em mar alto. Elas afogam-se  nas próprias lágrimas e deixam-se boiar na esperança  que as marés as empurrem até à costa. As que conseguem chegar a terra, vivem com as marcas no corpo da tempestade que atravessaram.
Nestes trabalhos de pescaria, a rede é como uma cama elástica. Estica e engravida diariamente. Engole toda a fauna de peixinhos, não distingue barrigas. Dá náuseas e deixa-nos incomodados mas muito amiúde são os que cuidamos que naufragam.

 E agora o que fazer aos moralismos, às retas que nunca se encontram, ao senso correto e errado? São vidas, são as nossas vidas, as nossas paixões, os nossos sorrisos e olhos desprotegidos que estão a pedir socorro. São elas que hoje estão por perto.

escrito por Inês Manso
grupo das voluntárias “as três mosquiteiras”: Carina Moutinho, Diana Ribeiro e Inês Manso





4 Responses to Escassos os nomes não magoados que se orientam na estrada até ao fim…
  1. Que maravilha de paisagem.

    Minha Querida Amigaaaaaaaaaaaaaaa manda +++++++++++

    Beijinhos e Bom Trabalhoooooooooooooooo

    Ps. Divirtam-se

  2. Linda paisagem.

    Beijinhos para todas e um especial para A Carina

    Divirtam-se e não trabalhem de ++++++++++++

    Saudades da Metrople

  3. En garde touché…

    Beijinhos ás três mosqueteiras
    Vitor

  4. Olá nossas queridas “mosquiteiras”!

    O que fazer com tudo o que aprendemos? Como lidar com verdades que afinal não são tão verdadeiras?

    Como nos sentimos impotentes diante de um mundo tão desigual e que não faz da desigualdade o estandarte para o tornar mais igual no que interessa!

    Apesar de sermos mais velhas, lamentamos não termos ainda descoberto a equação que resolverá estes dilemas. A única coisa que sabemos é que boiar pode não ser suficiente… se a sorte for má, a ajuda pode não chegar a tempo. É necessário esbracejar e tentar seguir em frente…

    A má notícia… é que sozinhos não conseguimos mudar o mundo. A boa notícia… é que podemos ajudar a melhorar o mundo de uma pessoa que, com toda a certeza, vai ajudar a mudar o nosso mundo.

    Afinal vocês são as 3 “mosquiteiras”!Imaginamos o quanto esbracejam por aí!!!

    Um xi daqueles mesmo, mesmo bons para as “mosquiteiras” e seus dois bicicliteiros (cavaleiros que montam bicicletas) e para todas as nossas crianças e mamãs coragem

    Das sisters


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