São 5 h da manhã e hoje quem nos desperta é o soar da mesquita que está do outro lado da rua. Nada mais caricato pois hoje coincide com o dia em que vamos visitar o outro lado do rio dos Bons Sinais.
Ainda meias ensonadas e com o ritual matinal completo partimos em direcção ao porto de Quelimane para apanhar o batelão que nos levou a Inhassunge, bem como a muitas outras pessoas, bicicletas, motas, galinhas, sacos de arroz e de farinha e chapas para os telhados. É  um apinhado de coisas impensáveis para um tão curto espaço. E assim, depois de 15 min embaladas pelas calmas águas do rio chegamos à Recamba, local onde desembarca o batelão e cada um segue o seu caminho e a sua lide.

Na Recamba encontramos o Sr. Monteiro que é uma ajuda preciosa e nosso intermediário neste local. Partimos com a nossa boleia, uma carrinha de caixa aberta que seriá a protagonista dos momentos mais hilariantes que iremos viver. 

 

O caminho que separa a Recamba de Inhassunge é todo em terra batida ladeado por longas planícies e arrozais que nos transportam para uma realidade completamente diferente. Aqui sentimos a verdadeira natureza africana. 

Passadas 2 horas, com o sol já alto e a aquecer, começamos o nosso trabalho no terreno que consiste na visita domiciliária a 36 famílias que aqui são apoiadas pela ataca. Uma particularidade de Inhassunge é que as casas ficam todas afastadas umas das outras sendo na maioria das vezes impossível chegar de carro Assim que o deixamos, começamos a nossa caminhada por trilhos que só se traçaram à custa de muitos pés. Depois de quatro horas num ritmo alucinante tínhamos percorrido 15 casas! O espírito não estava cansado mas sim revigorado e com o sentimento de dever cumprido! 

 

Durante as visitas contamos com duas ajudas imprescindíveis – são eles o Sr. Popote que já ultrapassa os 60 mas que tem o dinamismo a força e a alegria dos 30, e o Sr. Rosário. Estes dois senhores além de conhecerem a localização exacta de todas as casas que parecem perdidas num labirinto de selva e arrozais também são os nossos tradutores, uma vez que aqui a maioria fala o chuabo e são raras as pessoas que falam português. No entanto, em cada visita somos sempre recebidas com um sorriso envergonhado mas muito sincero e agradecido.

 

Depois deste dia exaustivo, mas produtivo de trabalho conseguimos ver os obstáculos que estas famílias encontram a cada dia para poderem ter alimento, uma casa onde viver e criar as suas crianças. O facto de Inhassunge estar tão isolado cria inúmeras barreiras e custos acrescidos para as famílias conseguirem estabelecer-se. A forma que estas encontram para contornar este problema é no sustento através da criação de galinhas, patos, por vezes porcos e no trabalho de uma pequena machamba da qual tiram o alimento do dia a dia.
Relativamente às crianças foi surpreendente testemunhar aquela frase que tantos pais pronunciam aos seus filhos: ‘existem muitas crianças que não têm nada com que brincar’ e aqui o divertimento delas é correr atrás dos raros carros que passam por estes caminhos estreitos mas que quando passam, instalam a euforia na criançada e juntamente com o facto de as pessoas que vão nos carros serem muzugos(brancos) multiplicam-se os tatás (adeus em chuabo) e os sorrisos de quem ganhou o dia J e nós também!

Outra característica habitual nas crianças moçambicanas em geral é a curiosidade em relação às máquinas fotográficas e aos telemóveis. Mal vêem algum, somos logo cercadas e fazem pose para uma fotografia e é engraçado ver a surpresa e os risinhos depois de se verem no ecran.

Depois de um dia cheio de peripécias e coisas novas eis que surge a mais cómica e marcante. Por vezes no caminho surgiam pequenas pontes feitas de coqueiros dispostos paralelamente, quando estas surgiam vinha o dilema ‘passar ou não passar com a carrinha’ e nós com o espírito aventureiro típico de uma criança que quer sempre mais, respondíamos ‘bora arriscar tudo’ (além de que aquela era a única forma para chegar a muitas famílias e esse é o objectivo da nossa missão). E como nem sempre a sorte está do nosso lado numa das pontes um dos coqueiros decide ceder e o carro fica preso na ponte e nem para trás nem para a frente…. De um momento para o outro já nos vemos rodeadas de homens com as calças arregaçadas e descalços e um aglomerado de crianças vindas não sabemos de onde, todos com muita força de vontade, ideias e palpites conseguem arranjar forma de tirar o carro dali e assim lá pudemos voltar a casa. 

Apesar de Inhassunge estar a um passo de nós, o que supostamente seria fácil de chegar e fazer lá o nosso trabalho não é assim tão linear uma vez que está demasiado isolado, dependente de um batelão que nem sempre está completamente operacional e de uma boleia que nos leva às casas das familias apoioadas e como tal só passados 5 meses de aqui (Quelimane) estarmos é que conseguimos chegar.

O outro lado do rio dos Bons Sinais é um pedaço de terra virgem que nos transporta para um cenário da tão conhecida série Lost e onde nos sentimos completamente ‘perdidos’mas ao mesmo tempo tão perto…
Ana & Márcia
One Response to O outro lado do rio dos Bons Sinais
  1. Viva,continuem assim pois este povo precisa de gente como vocês.Gostaria de vos conhecer e interagir. Eu também nasci neste Distrito.Como vos localizar?


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