Os longos 16 anos da guerra civil Moçambicana, que incluíram a província da Zambézia, levaram ao aparecimento de um elevado número de crianças nas ruas da cidade de Quelimane, provenientes quer desta zona, quer de outras partes da Zambézia. Apesar do seu término em 1992, as consequências da guerra continuam e o problema das “crianças de rua” subsiste sem fácil resolução quer pelas autoridades governamentais quer pelas ONGD’s que aqui desenvolvem os seus programas de cooperação para o desenvolvimento. Os elevados níveis de incidência e prevalência de HIV/SIDA são provavelmente o maior entrave à redução deste problema e ao desenvolvimento de Moçambique. Existem cerca de 1.6 milhões de pessoas a viver com HIV/SIDA e cerca de 350 mil crianças órfãs devido a doenças relacionadas com o vírus do HIV. Sendo, em particular, estas as crianças que estão mais sujeitas a casos de má-nutrição severa. Muitas destas crianças/jovens órfãos são deixados ao cuidado de tios, avós, amigos ou vizinhos sem condições financeiras suficientes para satisfazerem as suas necessidades básicas; outras possuem famílias, mas em resultado da degradação familiar e social motivadas quer pela pobreza extrema quer pela doença, muitas delas acabam por mendigar na rua ou cair na delinquência. Assim, e independentemente de serem órfãs ou não, muitas destas crianças e jovens acabam por encontrar como único abrigo o céu das ruas de Quelimane. É aqui que surge o fantástico apoio da Casa Esperança (CE) que tem como objetivo fundamental acolher crianças órfãs, de famílias numerosas ou em situação de pobreza extrema.

Atualmente, a CE subsiste através da receita proveniente da ataca e da Oásis, tratando-se de um orfanato vocacionado ao acolhimento de rapazes. Abriga, neste momento, 35 crianças e jovens com idades compreendidas entre os oito e os vinte e um anos. Em termos de estrutura a CE possui um salão com mesas de estudo, um escritório, uma biblioteca com fome de livros, uma zona de quartos comuns à espera de redes mosquiteiras, uma zona para lavagem das roupas, um refeitório onde as refeições são comidas com a mão, um campo de futebol que muitas vezes se encontra vazio pois não existe uma bola para chutar, um pequeno parque infantil à espera de baloiços, um espaço para a criação de um futuro galinheiro e uma enorme área livre que podem utilizar como machamba.

O pequeno Zito pendurado na porta da biblioteca
Nelinho pronto a atacar a refeição
Jogo de Futebol
Hora do T.P.C.

A casa é gerida pela Irmã Margarida que conta com o apoio administrativo do Belarmino, o apoio da Ângela e da Isabel na confeção das refeições e no cuidado das roupas dos meninos e o apoio do Sr. Lopes, que garante a segurança da CE durante a noite. A CE conta ainda com o apoio de um explicador e dos tios Diana, Érica e João. Em conjunto procuramos apostar na motivação destas crianças e jovens para seguirem uma formação académica ou técnico profissional. Ao mesmo tempo procuramos trabalhar o sentimento de segurança e confiança destas crianças e jovens em si mesmos e nos outros, de forma a ultrapassarem carências afetivas provenientes de cada uma das suas histórias; motivá-las a encontrarem um sentido para as suas vidas e a desenvolverem os valores fundamentais para viverem e se integrarem na sociedade. Conhecemos recentemente o Grupo Alternativo, um grupo de jovens moçambicanos que fomentam o voluntariado em prol do povo chuabo. Este grupo tem vindo a desenvolver atividades na CE. No passado dia 1 de Junho, festejaram connosco o Dia da Criança. Foi um dia cheio de cor, música, sorrisos e barriguinha cheia =) pois ao contrário do que é habitual houve frango, batata frita, sumos, refrigerantes, bolo de chocolate, bolachas, rebuçados, entre muitas outras coisas. Deliciem-se com as fotografias e a alegria dos pequenos e dos mais velhos.

Dia da Criança
Grupo Alternativo

A CE é um projeto muito querido onde é difícil colocar barreiras emocionais. Desde o primeiro dia nos apaixonamos por aqueles rostos que nos olham e tocam com curiosidade, ainda explorando e perscrutando o nosso tom de pele, o nosso cabelo, as nossas veias e os nossos pequenos hematomas. Somos os “tios” brancos que vêm, mas um dia irão embora. Os seus olhos pedem afeto, mas as atitudes e o corpo por vezes são rígidos e não o aceitam facilmente, pois desde cedo aprenderam que indubitavelmente podem perder aquilo que aprenderam a amar. Queremos conquistá-los e ao mesmo tempo cortar o cordão umbilical, para que com o nosso pequeno apoio possam crescer e voar sozinhos. Voar em direção a um futuro promissor, que lhes possibilite tornarem-se adultos autónomos e independentes, afastados do limiar da pobreza extrema.

Diana Pereira,
Voluntária da Missão CIGLO, ataca.
01.06.2014

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