No passado mês de Maio viajámos cerca de 400km para Norte de Moçambique até Milevane, onde a terra é de cor vermelha, onde o sol se põe entre as montanhas, onde o céu é puramente limpo e nos proporciona um luar brilhante recheado de estrelas. A energia é escassa, o que nos obriga a deitar cedo e acordar com o nascer do sol, ao som do chilrear dos passarinhos…

Em Milevane encontra-se um dos projetos que a ATACA apoia. Hoje, mais do que escrever sobre a nossa magnífica experiência pessoal, importa-nos apresentar um pouco o projeto e a sua importância ao nível Local e Nacional.
A Escola Família Agrícola de Milevane (EFAM) tem a sua sede em Milevane, localidade de Nauela, distrito de Alto Molocué, província da Zambézia.

 

A Escola é propriedade da Congregação das Irmãs do Amor de Deus, Instituição Religiosa Católica, com personalidade jurídica, plena capacidade e autonomia, reconhecida pela legislação vigente em Moçambique. A EFAM é uma Escola Básica de Ensino Profissional do ramo Agro-Pecuário.
A Direção da Escola fica exclusivamente a cargo das Irmãs do Amor de Deus, competindo-lhes também a orientação pedagógica e administrativa ordinária de forma inteiramente autónoma.
 
Origem da Escola 
A Escola Família Agrícola de Milevane foi fundada no ano de 1996 e reconhecida pelo Estado de Moçambique em 2003. Inicialmente abriu com o curso Educação Alternativa. Emergiu do nível elementar técnico-profissional e leciona atualmente o nível Básico do Currículo Técnico-Profissional Agro-Pecuário.
Esta Escola representa o processo educativo da Igreja Católica de Milevane que é concretizado pelas Irmãs do Amor de Deus, na localidade de Nauela desde 1951.
De 1951 a 1975 esta congregação apoiava o Ensino Geral de Nauela e o Hospital da localidade. No ano da independência, deslocaram-se para Nalapa devido aos conflitos políticos entre a FRELIMO e a RENAMO e regressaram no ano de Assinatura do Acordo Geral de Paz de Moçambique. Assim, desde 1992 que a Igreja Católica aposta na região de Milevane, não apenas numa lógica religiosa, mas também promovendo o desenvolvimento socioeconómico local.
 
Objetivos da Escola
 
Os objetivos das Irmãs enquadram-se no Programa Nacional de Educação do Ensino Técnico-Profissional. A finalidade de lecionar este curso na EFAM foi dar noções elementares de agricultura e pecuária aos jovens, para promover a sua inserção no mercado de trabalho e fomentar o desenvolvimento pessoal e social destes alunos, permitindo que se integrem e combatam a pobreza na sua comunidade.
Esta Escola pretende ser um impulso profundo no progresso de Moçambique. Sendo um país rico em recursos naturais e minerais, é fulcral combater o empobrecimento do solo para a prática da agricultura e fomentar a empregabilidade nesta área.
A atividade agro-pecuária é uma das mais importantes para o desenvolvimento social e económico da região de Nauela. Assim, fundamentando-se no princípio de que o desenvolvimento provém da Educação, a EFAM promove a atividade agrícola e pecuária, incorporando estratégias e acções que visem o alívio da pobreza da região e a promoção do crescimento socioeconómico de forma sustentável.
O curso de Agro-pecuária
 
O curso que desde 2010 é leccionado na EFAM é o Curso Agro-pecuário, do Ensino Básico Técnico-profissional.
 
 

A Escola acolhe alunos em regime de internato e externos a partir dos 15 anos, que tenham concluído a 7ª Classe, tendo atualmente lotação para 300 alunos. As Irmãs dão prioridade às inscrições dos filhos de agricultores da área de Nauela e a jovens que por quaisquer motivos não tenham possibilidade de se integrar noutra Escola.

O curso Agro-Pecuário tem a duração de três anos. Os alunos recebem, durante esse período, o Programa integral do Ensino Profissional Básico, sendo o currículo do 1º e 2º anos, composto pelas disciplinas do ensino geral e o do 3º inclui disciplinas técnicas do ramo agro-pecuário.
 
A componente prática do curso foca-se na produção de várias culturas (milho, amendoim, arroz, quiabo, batata-doce, mandioca, moringa, girassol, limões, ateiras, cana doce, toranjas, pêra abacate, bananas, papaias, entre outros) e no tratamento de diversos animais, nomeadamente cabras (para fornecimento de leite, carne e queijo), galinhas (carne e ovos), coelhos, porcos e peixes. Toda esta aprendizagem serve, ao mesmo tempo, para melhorar e diversificar a sua alimentação.

No final do Curso, os alunos terão equivalência à 10ª classe, o que lhes permite ingressar posteriormente no Ensino Geral se pretenderem concluir a 12ª classe e no Ensino Médio e/ou Superior.

No ano letivo anterior a EFAM adoptou o “Curso de Adaptação”, que não é mais do que um “ano zero” em que os jovens têm oportunidade de aprender a ler e escrever (pois como sabemos há muitas crianças com a 7ª classe que são analfabetas) e, no fim de completarem este ano, se estiverem aptos podem inscrever-se no Curso propriamente dito.
Uma vez que a EFAM se situa a cerca de 10km do Posto Administrativo de Nauela e os acessos são longos e difíceis, a Escola acolhe cerca de 200 crianças que estão em regime de internato. Fazem parte do Lar de Acolhimento todas as crianças que vivam a uma distância consideravelmente longa e todas as crianças que apresentem uma condição socioeconómica mais desfavorecida. É da competência da Direção do Lar, fazer esta avaliação de acordo com os requisitos da Instituição.
 Os jovens em regime de internato são responsáveis por todas as tarefas e atividades necessárias à manutenção sustentável da EFAM, nomeadamente, limpeza e organização dos dormitórios; limpeza das salas de aulas, refeitório e material agrícola; preparação das refeições; manutenção da machamba; tratamento dos animais; entre outras. Estes jovens acordam por volta das 4h30 e cumprem as atividades em grupos de trabalho que são calendarizadas anualmente. Por outro lado, têm horário de estudo obrigatório de forma a criarem hábitos de estudo.
A EFAM é uma Escola que aposta no Ensino de forma rigorosa e exigente, para tornar aqueles jovens futuros profissionais responsáveis.
 
Alguns dados:
O ano 2015 iniciou com o total de 187 alunos, contra 163 do ano anterior. Dos 187 inscritos, 116 são do 1º ano, 56 do 2º e 15 do 3º. A estes alunos juntam-se 33 do terceiro ano que pertencem ao antigo calendário escolar do Ensino Profissional. Este aumento revela um sinal positivo de crescimento da EFAM e aderência ao Ensino Técnico e Profissional. Neste ano letivo, a Escola dispõe de 9 professores e 10 funcionários não docentes. Dos 9 professores, 6 são Irmãs. Dessas, 3 são membros da Direção da Escola (Relatório de Atividades da EFAM do ano letivo 2014 e 2015).

Érica Rei e Marta Monteiro

Missão Hope – 2015

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