Em Moçambique, o clima tropical prega-nos algumas partidas. Saímos de casa com um sol radiante e de repente começa a chover torrencialmente, uma chuva que, apesar de nos colar a roupa ao corpo, até sabe bem pelo fresquinho que vem acalmar o calor estonteante! Mas a mesma chuva que atenua o calor, traz também muitos problemas para a população.
Este ano o governo avançou com um projecto de melhoramento do sistema de escoamento da cidade de Quelimane, pelo que podemos dizer que a concentração de água nas ruas diminuiu significativamente. Ainda assim, em tempos de chuva, há uma luta diária para a deslocação das pessoas, principalmente nos bairros. Muitas zonas ficam com a passagem praticamente impedida, tendo as pessoas que se aventurar por poças de água, sem saberem se têm 10cm de profundidade ou 1m!

Depois da entrega dos donativos, o dia a dia dos voluntários da atacaé andar pelos bairros a visitar as mamãs das crianças apoiadas, para verificar a correcta utilização do donativo e fazer um acompanhamento do desenvolvimento da família. Mesmo quando chove, lá vai a equipa ataca bairro dentro, por entre poças de água, pequenos lagos e quase rios (obviamente esperando que alguém passe primeiro para ver onde é a zona mais baixa (ehehe!), mas sem nunca desisitir!!

Infelizmente, nos bairros em que os terrenos são mais húmidos (principalmente junto ao rio e no mangal), a concentração de água no meio do caminho é o menor dos problemas para a população que lá vive – passa-se facilmente pela água! Pior é o matope (lama muito espessa) que cria autênticos pântanos à volta das casas. Uma das nossas famílias mudou-se recentemente para uma casa que, ainda não estando finalizada e não tendo o terreno tratado, estava exactamente nessa situação quando lá fomos visitá-la:

Pois é, para chegar a casa do André não havia outra forma senão atravessar uns 20m em matope mas nós não desistimos! Obviamente o Melo, experiente, tirou logo os seus sapatos, mas eu, convencida que as minhas botas iam dar conta do recado aventurei-me pelo pântano calçada! Ao primeiro passo correu tudo bem, só sujei um pouco as botas de lado, pelo que lá avancei com um sorriso de satisfação e um olhar como quem diz que tinha razão, mas que rapidamente se transformou no pânico de enfiar o pé até meio da perna e ter matope a entrar dentro da bota! Foi aí que recebi do Melo o mesmo olhar com que há pouco o gozava e percebi que a voz da experiência deve sempre ser ouvida! Estando o mal feito, segui toda contente pelo matope dentro agora já descansada – pior que isto não ficava!
 

No final, vejo a mamã muito preocupada a querer limpar-me os pés e as botas e com um olhar de vergonha por nos ter feito passar por “aquela situação”. Só a consegui descansar dizendo 
Não se preocupe mamã, eu tive de fazer isto uma vez, vou chegar a casa lavo os pés e as botas e já está, pior é a mamã que o faz todos os dias e não se queixa”!
O olhar de vergonha desapareceu e recebi em troca um eterno olhar de gratidão…

Todos juntos conseguimos colocar este sorriso nas nossas mamãs e crianças!

Um grande beijinho para a familia ataca!

Inês Pires

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